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domingo, 14 de janeiro de 2018

Projeto (des) Acumuladores – Parte 02




Pequenas vitórias

Recapitulando, comecei  a documentar minha jornada contra a acumulação em nossa casa no dia 19 de dezembro de 2017. No dia seguinte, encontrei uma matéria ótima com um resumo do método de organização FlyLady, e resolvi colocar em prática, ao menos o que já dava pra implementar na hora (mas não me restringi aos 15 minutos sugeridos pois quero ver os resultados em bem menos tempo). Nos dias seguintes vivi, duas vezes ao dia (pela manhã antes de ir trabalhar, e ao voltar no final do dia), a quase aventura de encontrar pelo menos 27 itens pra doar ou jogar fora. Incrível como vai ficando até mesmo divertido, quase como um jogo.

Na primeira semana consegui retirar de casa pelo menos 10 sacos de lixo de capacidade de 100 litros, entre materiais recicláveis e orgânicos. Isso tudo sem contar o que foi separado pra doação: um aquecedor quebrado, uma pia (sim, uma pia.. Uma pia, que ficou alguns meses no corredor de entrada do nosso apartamento. A desculpa é que ia ficar só ali no cantinho por pouco tempo, porque ia ser vendida, mas não foi), um criado-mudo, utensílios de cozinha, muitas revistas e algumas roupas também, entre outras coisas.

No final do feriadão (dia 2 de janeiro) o pessoal da instituição veio recolher tudo, e é incrível como a sala já parece muito maior do que era. Também nesse tempo consegui lavar todas as paredes da cozinha e quase todas da sala, e colei alguns taquinhos do parquê que estava soltando há tempos em algumas partes do piso. Nas próximas folgas vou lavar o que falta e continuar a pintura (que comecei agora no dia 10 de janeiro).
Outra coisa que notei é que os gatos também estão bastante alegres com mais limpeza e espaço pra brincar! Me sinto uma “mãe” muito mais feliz. ^__^


Shatira e Chuchu, meus filhos lindos peludos:



Algumas semanas agitadas

Foram algumas semanas agitadas, com muita coisa acontecendo: trabalho, calor, uma pia entupida (que ainda não consegui resolver), muito cansaço.. Parte do meu tempo livre foi usado também pra consertar algumas coisas: além dos taquinhos do piso, também dei uma demão de tinta no forno elétrico, que estava um pouco enferrujado e descascando em cima, limpamos muitos cobertores, pintei as paredes e teto da cozinha (o teto eu acho que nunca havia sido pintado, e as paredes haviam sido pintadas há muitos anos num tom amarelo claro mas estavam repletas de manchas que não saíram com a lavagem das semanas anteriores), e eu finalmente recebi (e instalei) uma peça que completa minha secadora de roupas, e com isso vai ficar mais fácil secar volumes maiores como os cobertores e cortinas. Ainda tem muitos reparos pra fazer na cozinha e na casa toda, mas já começamos a ver mudanças muito grandes e animadoras!

Rápido antes e depois de parte da cozinha:




Uma alegre surpresa

Bom, perdi a conta de quantos sacos de lixo (capacidade 100l; entre recicláveis e lixos orgânicos) já foram até agora, e devido ao calor que temos passado (verão) e minhas poucas folgas do trabalho, o processo ficou um pouco mais lento do que nos primeiros dias. Ainda ouço do meu outro irmão o eventual “isso ainda pode ser útil”, mas percebo que estamos ficando bem mais conscientes em termos do que deve ou não ser guardado.

E outra coisa muito boa aconteceu nessas semanas: meu irmão acumulador apareceu de surpresa em um dia de minha folga, enquanto ainda havia em casa muitas coisas juntadas por ele que separei pra doação, e também alguns sacos grandes com variados tipos de lixo. Eu ainda estava no banheiro quando o ouvi perguntar onde estavam todas as coisas dele que ficavam no canto perto da cortina da sala. De lá mesmo eu respirei fundo (achei que lá vinha briga) e calmamente disse que tinha um pouco no roupeiro e mais um pouco dentro da estante. Ouvi a porta do roupeiro se abrindo. Silêncio... (Seria um bom sinal? Em tempos anteriores ele já estaria xingando aos gritos..) Saí do banheiro, ele me perguntou se tinha “baixado a Maria” (se estava faxinando a casa), porque no ponto em que ele chegou já havia mudanças bastante grandes e positivas. Eu aproveitei e disse que estávamos há tempos com problemas de baratas, cupins e outros bichos dentro de casa, e assim já não dava mais.



Agora uma pausa pra explicar que faz alguns meses, após alguns eventos difíceis onde o apoiamos, ele deixou de ser agressivo conosco (comportamento que vinha desde a infância) e tem inclusive se desculpado em algumas situações (e isso nunca acontecia, e agora já temos quase 40 anos de convivência e pelo menos uns 25 de brigas constantes), e esse foi um dos motivos de ter resolvido tentar de novo a limpeza geral agora.

O resto da conversa foi bastante tranqüilo. Eu aproveitei a calma dele e disse que não queria que ele trouxesse mais lixo pra dentro de casa. A resposta dele foi “que lixo?”, e a minha foi “restos de construção, coisas velhas que outros jogaram fora, peças velhas, etc” e pra minha surpresa ele não se alterou em nenhum momento. Outra surpresa foi que ele não tentou em nenhum momento revirar nenhum dos sacos na sala pra pegar coisas de volta.

Nos dias seguintes ele apareceu mais vezes, e num deles apenas me perguntou educadamente onde eu havia guardado alguns sapatos, e quando mostrei onde estavam ele ficou bastante feliz. Em outro momento comentou comigo que não jogava nada fora. Eu não aproveitei o gancho dessa vez, mas ainda quero aproveitar (quando a casa estiver um pouco mais limpa e organizada) e falar sobre o mal que essa acumulação faz (e como muitas vezes só percebemos quando a situação já foi longe demais), e como fica bonita a casa quando conseguimos jogar os excessos fora.
Como forma de incluí-lo, torná-lo cúmplice, também pedi que ele separasse coisas que não quer mais, que já estejam estragadas, pra jogarmos fora. Não sei se ele vai fazer isso, mas ao menos no momento ele concordou, ao invés de brigar.

Mas pra equilibrar, o outro irmão tem contestado quanto a certas coisas que estou separando pra doação. Algumas caixas ele chegou a revisar (ou melhor dizendo, revistar...) pra ver se eu estava descartando alguma coisa que ele considerava útil... Essa semana me disse de novo que poderíamos precisar de algumas dessas coisas. Eu respondi calmamente que ali estava o perigo, pois com a desculpa de que podemos precisar, terminamos soterrados em porcarias que pouco ou nunca usamos.


(Clipart daqui)



Coisas que têm me ajudado muito nessa jornada

1-     A diferença da casa limpa e organizada é muito grande (não tem argumento contra isso). Os espaços que se abrem mostram como o ambiente era na verdade maior do que se imaginava, apenas era ocupado por tralhas...

2-      Muita calma e bom senso na hora de conversar com quem acumula (ou mesmo quem a princípio não parece acumular, mas já se acostumou com a situação, e demonstra o mesmo “medo” de vir a precisar de algum item), destacando todos os pontos positivos e as melhorias que já aparecem, e também a questão da limpeza vs saúde e qualidade de vida.

3-      Organizar e limpar sozinha, pois assim ninguém contesta o que estou fazendo. Sei que em muitos casos é importante que o acumulador participe da limpeza, pois assim ele vai aprendendo e se prevenindo de acumular mais. Mas isso nem sempre é possível, nem sempre os outros membros da família estão preparados pra essa mudança. Como eles dificilmente lembram das coisas que têm soterradas entre outras coisas, fica mais fácil se livrar desses itens se eles não estiverem olhando (como roupas manchadas, estragadas, vidros vazios, alguns papéis velhos, comidas vencidas, etc). No meu caso, se meus irmãos participassem dessa limpeza, o processo seria muito mais lento e estressante, e quase nada seria jogado fora. Por isso preferi fazer tudo sozinha, que é bastante cansativo fisicamente, mas mentalmente é a opção mais rápida e pacífica.

(Essa linda moldura vem desse site)



Tenho que admitir de novo que eu também acumulava muitas coisas (embora ao longo dos anos eu já tenha me livrado de muitos excessos), e esse tem sido um processo de libertação pra todos nós. Ainda que a maioria das coisas que esteja jogando fora agora não tenham sido acumuladas por mim, ver cada um desses itens desnecessários tomando espaço na casa tem me ajudado a olhar tudo com uma nova perspectiva, de mais distanciamento emocional. Por exemplo, antes eu guardava todas as receitas que nossa mãe havia colecionado, simplesmente pelo fato de que ela havia posto muito amor nessa tarefa de juntar cada uma delas, pensando em repassar pra nós ou mesmo preparar pra família. Mas eu resolvi manter somente as receitas que tem maiores possibilidades de realmente ser utilizadas, e algumas também que ela escreveu à mão. Quando jogamos fora as pilhas e pilhas de coisas desnecessárias, fica muito mais fácil valorizar e apreciar os verdadeiros tesouros que antes ficavam escondidos como apenas mais uma gota de água no oceano do caos e da desordem.



E você? Já fez ou pensou em fazer alguma mudança radical em sua vida, mesmo sem ter o apoio da família?